Quando idealizei o Ensaio Namorados a idéia era incentivar fotógrafos e clientes a elaborar os ensaios de casais com mais personalidade, roteiro e direção de arte.
Em janeiro de 2010 convidei o Fábio pra gente criar os ensaios assim. Fizemos o primeiro ensaio nessa época, foi um passeio de lancha incrível. Em 2011, junto com o Coletivo Capital, criamos a marca e ficamos durante o ano inteiro batalhando pra consolidar o projeto.
A idéia é fazer os ensaios sempre com roteiro, direção de arte e uma produção. Seja a fantasia do casal em encenar personagens de época, ou retratar algo que realmente conte a história do namoro.
Quando falo em direção de arte, muitos acham bobagem, outros pensam em editoriais de moda ou mega produções, investimentos altos ou deixar a cargo do cliente cuidar de tudo. E hoje resolvi pegar o último ensaio namorados que fiz e contar um pouco sobre os bastidores!
O Ensaio da Claudia e do Pedro foi fotografo por mim e pela Aninha, e filmado pelo Coletivo Capital.
Vou colocar umas etapas que considero importante.
Roteiro – Pra mim, todo ensaio precisa e merece um roteiro. Uma narrativa básica. Uma sequência lógica. É gostoso ver um ensaio e ter a sensação de estar vendo o capítulo de um filme, com história e personalidade. Pra mim a função do roteiro é essa, é pensar no começo, meio e fim. Pensar nas fotos com ações que consigam contar a história que você vai registrar. Pra fazer o roteiro eu geralmente me baseio no briefing. Anotações que faço ao longo de conversas, emails e encontros. No caso dos meus clientes, eu tenho uma ficha com perguntas que me levam a entender o estilo do casal, locais que são especiais pra eles, o que representa o namoro deles. Não levo essa ficha pras reuniões, eu apenas vou preenchendo a cada conversa ou mesmo emails, transcrevo tudo e vou norteando meu trabalho. Saio da reunião, ligo o gravador do celular e falo tudo. Chego em casa e degravo. No caso da Claudia e do Pedro, eu era a fotógrafa do casamento, acompanhei ao longo de meses, e isso me possibilitou conhecer bem o jeito deles. Eles queriam que o ensaio fosse em casa, com os cachorros. Contou que tinham o habito de brincar com cães no jardim e visitar a obra da casa. Pronto, já tinha um norte e escrevemos o roteiro. (Esse foi criado em parceria com o Bruno, do Coletivo Capital). A idéia foi contar como era um dia deles em casa. Café da manhã tinha mais a ver do que almoço. Quem iria almoçar e sair em seguida pra brincar com cachorros? Aí que entra o pouco da lógica. Pense no roteiro como uma coisa do seu dia a dia, que tenha verdade. Óbvio que se o roteiro for lúdico, os contos de fada serão o norte! =)
- Locação: Pra cada ensaio pensamos no local ideal. Nesse caso, já tínhamos o lugar, em muitos casos eu busco pela cidade mesmo. Faço perguntas ao casal sobre preferências ou indico lugares que já fazem parte do meu acervo. Como montar um acervo? Toda vez que saio de casa, anoto ruas, becos grafitados, restaurantes bonitos, cafés, teatro… a luz no fim de tarde em uma arvore, ou mesmo um prédio bonito… enfim, tudo por aí vira acervo. Eu olho, vejo e anoto. E anoto o estilo do lugar e que tipo de ensaio ficaria legal lá. Quando os ensaios surgem, eu já tenho esse mapa. Fugindo de lugares óbvios e ao mesmo tempo buscando que tenha a identidade do casal. De nada adianta um lugar incrível, cenário lindo, mas que não combina com as pessoas que serão fotografadas. De nada adianta ser um lugar lindo, mas que eles nunca iriam porque não tem nada a ver com eles. Um bom exemplo : pique-nique. O óbvio é levar a parques, mas nem todo casal combina com parque. Nesse caso, procure alternativas que se pareçam com o casal e não somente com o estilo do ensaio. Parede grafitada é linda, seja pra ensaio namorados, ensaio feminino ou ensaio de casal, mas não é qualquer ensaio que fica bonito assim. O cenário não é tudo.
- Direção de Arte e Produção: Nós é que cuidamos dessa parte! Não deixamos a cargo do cliente, porque acreditamos que a gente é que deva cuidar disso, é parte do nosso trabalho, pra que ele fique como planejamos. Nesse ensaio tínhamos no roteiro o café da manhã. Ele exigia cuidados de arte e produção. O que significa isso? A parte de direção de arte era listar o que é bacana estar entre os objetos de cena. Cafe da manhã: frutas, pães, bolo, suco, vitamina, o que vamos ter?… Nada que fosse cara de café da manhã de hotel mas que também fosse visualmente bonito. E óbvio objetos como potes de ceramicas coloridos que combinariam com a geléia que compramos, escolher onde ficará os pães e tudo isso. Além de todo e qualquer acessório que a gente acredite ser importante. Escolher as frutas que fotograficamente ficariam mais bonitas… o bolo que ao cortar ficaria mais interessante, os biscoitos que eram bonitinhos. E sim, estávamos no mercado pensando em tudo isso! Essa foi a parte de produção, a execução. Tentamos comprar comidas que tinham a ver com o casal, com uma lista de coisas que eles gostavam, e outras que a gente imaginou que eles gostariam. E muita coisa escolhemos exclusivamente pra ficar bonito na foto. A geléia amarela, que eu avisei pra Claudia “nem sei se é gostosa, mas é bonita!” Parece falso? Não. Isso é direção de arte. Uma cena, seja filme ou novela também é feita assim. Repare os cafés da manhã de novelas. Cada núcleo tem seu café da manhã, de acordo com a personalidade da família. Isso é compor o cenário pra que passe verdade e que seja visualmente bonito, encantador. Figurino? Mesma coisa. A Claudia nos mostrou “essa roupa ou essa?” e sim, escolhemos o branco, já que na mesa tinha colorido demais, optamos pra que os dois estivessem com uma roupa mais neutra e sem estampas.
- Direção de Fotografia: de nada adianta escolher fazer fotos ao ar livre e não pensar na luz. Parece óbvio? Pois tem muito ensaio por aí que foi feito no fim de tarde e que certamente teria ficado mil vezes mais bonito as nove horas da manhã. Mesma coisa pra ambientes fechados, não terá luz suficiente? Alugue tochas de luz continua, leve LED, pense em cada cena. As fotos na cozinha, em que eles estão comendo, é uma luz. As fotos fazendo a vitamina é outra luz. Mudamos as luzes de lugares e preparamos pra cada cena do roteiro. No caso eram duas tochas de luz continua. Não fizemos nenhuma luz elaborado, não fiz contra-luz nem flare. Porque claro, não combinaria em nada qualquer foto artística dessa natureza. A idéia era que as fotos tivessem o ar de familiaridade, proximidade com o real… ao ir pro jardim, não interferimos na luz, justamente pra que também não fugisse do real. Na cena dele beijando os pés dela, e sim é um hábito dele, e que ele fazia questão de ter registrado, eu não liguei a luz pra ficar mega claro, a idéia era exatamente essa. Ele indo ao pé da cama, como faz, e beijando. A luz jamais seria muito forte ou clara, de novo a fidelidade a cena real mesmo.
Bom, falei um monte, e acho que deu pra explicar um pouco de forma mais ampla e falando de um ensaio especifico, pra que possam ver o resultado como foi. Espero que a turma goste. Aos clientes, a intenção é mostrar que cada ensaio é resultado de muita pesquisa, estudo e carinho. A idéia é mostrar pra vocês que nosso trabalho não é apenas clicar, tudo isso é parte do nosso trabalho.
Aos amigos da fotografia, minha intenção é ajudar, mostrar que a direção de arte faz parte sim de um detalhe importante. O roteiro é seu norte, é uma forma de você ter ensaios que contam histórias.
Ah, um detalhe importante, na hora de postar! As fotos seguem o roteiro, a logica dele, e não a cronologia das imagens. Nesse caso tudo aconteceu nessa sequencia, embora não fosse exatamente oito horas da matina! =) Mas na hora de publicar, escolhi as fotos e ordenei por uma sequencia. Detalhe da cozinha, pra ambientar vocês. Ele acordando ela. Ele pegando o biscoito dos cachorros. Ela preparando vitamina. Ele indo se meter na vitamina. =) Tomando o café juntos. Os cachorros invadindo o café da manhã. Eles brincando na mesa. Depois lá fora e em seguida olhando a casa nova.
Na escolha coisas que me preocupei por exemplo. Uma foto dela servindo a vitamina, já que a vitamina era uma cena importante. Esse tipo de detalhe eu gosto de me preocupar, especialmente na hora de postar ou escolher as fotos do album. Pra mim, seria estranho ela fazer a vitamina e não tomar. (ou seja, ter as fotos dela preparando, mas não ter a foto dela tomando). Parece ridiculo, mas eu poderia ter escolhido só fotos que não tinham a vitamina, e isso, pra mim, geraria uma falha na narrativa.
Vai lá no Ensaio Namorados ver o resultado!
Essa aqui eu escolhi, porque pra mim, foi uma das que eu mais gostei. A cara deles!

Rafa, muito obrigado pelo tempo dedicado a explicar esse processo. Não vejo a hora de produzir de verdade um ensaio e planejá-lo com tanto cuidado quanto você descreveu e demonstra.
Beijão
Rafa, em um ano e meio que te conheço pessoalmente, senti uma certa evolução não somente na minha fotografia, mas também na forma de encarar a fotografia. Como planejar um ensaio. Tentar dar narrativa não só ao ensaio, mas também ao post. E isso devo a você, que sempre teve toda a paciência do mundo pra me passar conhecimento, falar sobre direção de arte, sobre roteiro.
Fotografar esse Ensaio Namorados da Claudia e do Pedro contigo foi, além de uma oportunidade de aprendizado, motivo de muito orgulho pra mim. Assim como me senti extremamente feliz por dar meus pitacos na produção, com a “geleia amarela” ou a carambola cortada pra ficarem as “estrelinhas”.
Fofinha, muito obrigada por compartilhar conosco tanto conhecimento por um bem maior: aumentar a qualidade dos ensaios fotográficos de uma forma geral.
Beijo
[...] e do Pedro, mas vejam aqui o post completo, com fotos minhas e da Rafa. E não deixem de conhecer aqui um pouco mais sobre o que está por trás desse [...]
Oi, Rafaela!
Conheci seu site no e-mail que você mandou pro grupo “NossoOlhar”. Gostei bastante, não só das fotos (que são lindas e criativas), mas do seu jeito de encarar a fotografia. Eu estou começando na área mas, como venho do Design, concordo com tudo o que você disse! Fotografia tem que ter história, coerência, tem que ter verdade, mesmo que seja um ensaio todo programado!
Eu gosto muito de desenhar então, além das anotações sobre a locação, paletas e tudo mais, eu costumo desenhar algumas fotos que, pra mim, seriam os keyframes da história. Ainda não consegui fazer um ensaio 100% do jeitinho que eu queria (por imprevistos ou preferências do fotografado), mas vejo como faz diferença esse planejamento. É nesse tipo de coisa – e não em equipamentos – que eu vejo um fotógrafo profissional.
Obrigada por compartilhar com a gente essa visão tão linda!
=)